Uma executiva que nunca tinha parado de trabalhar e uma palavra que ela deixou para o fim da lista. O que a vergonha faz com quem perde o emprego, e o que muda quando ela é dita em voz alta.
Alguns meses depois de voltar a um cargo executivo, ela aceitou olhar para trás e contar como estava quando chegou até nós. A conversa foi por vídeo, numa pausa do expediente, e a primeira pergunta foi simples: como você estava naquele momento?
Ela respondeu como quem apresenta um diagnóstico. Despreparada: sabia que o desligamento viria, a reestruturação estava anunciada, e mesmo assim não estava pronta. Fragilizada. Ancorada financeiramente, o que a livrava do desespero. Perdida, sem enxergar opção nenhuma. Quando a lista parecia fechada, acrescentou mais um item, quase como um adendo.
“E com vergonha, né?”
A ordem diz muito. A vergonha é das emoções mais presentes em quem perde o emprego e uma das últimas a ganhar nome, inclusive entre pessoas que, como ela, têm vocabulário de sobra para falar de si. E, neste caso, ela aparecia mesmo com o dinheiro resolvido.
O que a reserva não resolvia
Ela trabalhava desde muito jovem, sem interrupção. De repente, estava do lado de fora, e as perguntas vieram em sequência: “Será que eu não sou capaz? Será que eu não tenho as habilidades corretas? Será que ninguém está me vendo?”
Tinha reserva e o apoio da família. Aproveitou o tempo para fazer cursos que sempre quis e nunca tinha conseguido encaixar. E se cobrava do mesmo jeito: “Como é que eu tô aproveitando isso, gerando um resultado, gerando riqueza?” Existe na gente um peso, ela explicou, de que para ter sucesso é preciso estar sendo rentável.
O dinheiro protegia o orçamento, não a identidade. Ela resumiu a perda numa imagem:
“Eu perdi o crachá. Eu era a [meu nome] da empresa tal. Era o meu sobrenome.”
Quem passou muitos anos numa mesma empresa grande conhece essa fusão. O nome da companhia deixa de ser o lugar onde se trabalha e passa a fazer parte de como a pessoa se apresenta, e de como é apresentada pelos outros. Quando o crachá vai embora, a pergunta “o que você faz?” fica sem resposta pronta.
Diante de quem
Uma pesquisa publicada em 2016 na revista PNAS, liderada por Daniel Sznycer, mostrou que a vergonha acompanha de perto o quanto achamos que seremos desvalorizados pelos outros, e que isso se repete em culturas diferentes. Ela funciona como um alarme sobre a reputação. Por isso a mesma demissão pesa diferente conforme quem imaginamos assistindo.
No caso dela, a plateia tinha endereço. “Ficar sem emprego é uma vergonha no Brasil”, disse. “Uma vergonha perante a família.”
A reação a esse alarme é conhecida. Amy Edmondson, professora da Harvard Business School, estuda há décadas como pessoas e equipes lidam com o que dá errado. Num texto de 2023 sobre seu livro Right Kind of Wrong, ela observa que, diante de um revés, o instinto é esconder, e que esse instinto vem de longe: houve um tempo em que ser rejeitado pelo grupo podia custar a própria sobrevivência. Edmondson escreve sobre erros e fracassos, e uma demissão numa reestruturação não é nem uma coisa nem outra.
Ela guardou. “A gente não conversa com o nosso companheiro em casa, a gente não conversa com o nosso mentor, com um colega de trabalho”, contou. “A gente guarda para a gente.”
Quando nada convertia
A busca não foi linear, e ela não fingiu que tinha sido. Houve um período em que nada convertia. Houve um processo que ela descreve como praticamente fechado, com almoço marcado com o diretor, até o telefonema do headhunter: tinham optado por outro candidato. Não converter também desgasta, ela admitiu, sem dramatizar.
Olhando para trás, ela não atribui essa fase a falta de preparo técnico. A resposta foi de uma precisão rara.
“Eu não tinha problema de conhecimento, eu não tinha problema de capacidade. A minha energia tava contaminada.”
Numa entrevista, ninguém vê a vergonha escrita no currículo. Mas quem está do outro lado da mesa percebe o estado de quem fala.
O dia em que ela falou
Brené Brown, pesquisadora da Universidade de Houston, ouviu mais de duzentas mulheres para entender como algumas atravessavam a vergonha sem ficar presas nela. Um dos achados centrais: falar do assunto com quem acolhe, em relações de empatia, é parte da saída. É o oposto exato do instinto de esconder.
Ela fez esse movimento duas vezes. A primeira foi quando decidiu que não ia atravessar aquilo sozinha: “Eu falei: eu não vou ficar aqui sozinha.” A segunda foi em casa. “Tinha isso com a minha família também, até conseguir falar”, contou. “Quando falei, foi super bom.”
A conversa não trouxe vaga nenhuma. Mas tirou do caminho uma parte do peso que ela levava para cada entrevista. E a cobrança foi dando lugar a outra leitura do mesmo período: não estar gerando riqueza agora não é o mesmo que não estar crescendo. Edmondson diz algo parecido quando defende que ninguém precisa se punir por ficar aquém de vez em quando.
No fim, ela tinha mais de uma proposta na mesa e escolheu para onde ir. Quando pedimos que dissesse algo a quem está prestes a viver o mesmo, não falou de LinkedIn nem de entrevista. Falou de preparo. A gente faz treinamento de liderança, faz treinamento para quase tudo, e não faz treinamento para mudar de vida.
“A mudança acontece porque a vida te empurra.”
A InnerPlacement acompanha profissionais e líderes em processos de transição de carreira, executive coaching e desenvolvimento profissional — com escuta humana e método.




